O que você vai encontrar
Nos últimos meses, uma pergunta passou a chegar com frequência à Felippe Alfredo Imobiliária: “apareceu mofo na parede, estragou o guarda-roupa, isso é problema do imóvel?”. Às vezes é. Na maioria das vezes, não é. Antes de responder no achismo, fomos olhar o que os instrumentos do INMET registraram hora a hora nos últimos seis anos.
De onde vêm os números
Usamos duas estações automáticas do Instituto Nacional de Meteorologia. A de Campo Bom (código A884) fica a uns 10 km de Dois Irmãos e é a mais próxima, mas o sensor de umidade dela ficou desligado de maio de 2020 a junho de 2022 e de novo no inverno de 2025. Por isso usamos também a de Porto Alegre, no Jardim Botânico (A801), que tem os seis anos completos. Os valores de cada cidade são diferentes, mas as duas sobem e descem juntas: nos meses em que ambas mediram, a correlação entre elas foi de 0,93.
As médias foram calculadas a partir das medições de cada hora, de março de 2020 a setembro de 2026. Para comparar anos, contamos de setembro a agosto.
O inverno de 2026 foi o mais úmido dos últimos sete
Em Porto Alegre, a umidade média de junho a agosto de 2026 ficou em 84,3%, a maior desde 2020. O recorde anterior era o inverno de 2022, com 82,1%. Em Campo Bom a média foi ainda maior: 86,5%, contra 79,9% em 2023 e 81,7% em 2024.
A média, sozinha, esconde o que mais pesa dentro de casa: o tempo que o ar passa quase saturado. Por isso o gráfico abaixo soma as horas com umidade acima de 90% e converte em dias inteiros.
No ano inteiro, o ar passou mais tempo encharcado
De setembro de 2025 a agosto de 2026, a umidade média em Porto Alegre foi de 78,2%, a segunda mais alta dos seis anos, atrás só de 2023/24, o ano da enchente. Mas no indicador que mais se relaciona com mofo, as horas com o ar acima de 90%, o último ano ficou na frente de todos.
Em Campo Bom, onde a série tem falhas, o sinal é o mesmo: de outubro de 2025 a agosto de 2026 a média foi de 81%, a maior entre os anos com dados comparáveis (74,5% em 2022/23, 78,8% em 2023/24 e 75,2% em 2024/25).
E a chuva? Não foi ela
É natural associar umidade a chuva. Os números mostram outra coisa: o último ano não foi especialmente chuvoso. Em Porto Alegre choveu 1.291 mm entre setembro de 2025 e agosto de 2026, abaixo da média dos seis anos e bem longe dos 2.428 mm de 2023/24.
Março de 2026 resume bem a situação. Em Campo Bom choveu só 31 mm no mês inteiro, e a umidade média foi de 82%. Foi um mês de calor abafado, com o ar carregado de vapor: o ponto de orvalho (a temperatura em que esse vapor vira gota) ficou em 21,3 °C, a maior média mensal registrada em Campo Bom desde que o sensor voltou a funcionar, em 2022. Não é preciso chover para a casa ficar úmida. Basta o ar chegar pesado de água e ficar parado lá dentro.
O que está por trás
Os seis anos pegam fases bem diferentes. De 2020 a 2022, o estado viveu três estiagens seguidas, sob La Niña. Em 2023 e 2024 veio o El Niño, com chuvas extremas e a enchente de maio de 2024. O último ano teve um La Niña fraco, depois neutralidade, e agora um novo El Niño, confirmado pelo INMET e pelo INPE, com previsão de chuva acima da média no Sul na segunda metade de 2026.
No longo prazo, a tendência regional também é de mais água: a normal de chuva em Porto Alegre passou de 1.347 mm por ano (1961 a 1990) para 1.495 mm (1991 a 2020). Seis anos são pouco para falar em mudança de clima, e não é isso que este texto afirma. O que os dados mostram com segurança é mais simples: o último ano teve mais horas de ar encharcado do que qualquer outro desde 2020, e o último inverno foi o mais úmido da série.
Por que isso vira mofo dentro de casa

O ar sempre carrega água em forma de vapor. Dentro de casa ele recebe mais: banho quente, panela no fogo, roupa secando, a respiração de quem mora ali. Quando esse ar encosta numa superfície mais fria, como a parede atrás do guarda-roupa, o canto do teto ou o vidro da janela de manhã, o vapor volta a ser água. Se o lugar não seca, o fungo encontra o ambiente de que precisa.
Clima ou imóvel: como diferenciar
Nem toda mancha tem a mesma origem, e a origem define quem resolve. Estes são os sinais que olhamos na vistoria:
Se você mora de aluguel

- ✓Abra as janelas todos os dias, 15 a 20 minutos, mesmo no frio, de preferência em lados opostos para o ar cruzar.
- ✓Afaste os móveis da parede uns 5 a 10 cm, principalmente guarda-roupa, cama e sofá.
- ✓Evite secar roupa dentro de casa. Se não houver outro jeito, deixe a janela daquele cômodo aberta.
- ✓No banho e na cozinha, janela aberta ou exaustor ligado enquanto houver vapor.
- ✓Deixe os armários respirarem: abra as portas de vez em quando e não guarde roupa ainda úmida.
- ✓Nos cômodos mais críticos, um desumidificador faz diferença.

- Atrás dos móveis encostados na parede: guarda-roupa, cama, sofá, estante.
- Embaixo dos móveis: cama box, sofá, rack e móveis baixos, no piso e na parte de baixo do próprio móvel.
- Estofados e colchões: sofá, cabeceira e colchão. Vire o colchão e deixe arejar de tempos em tempos.
- Dentro de armários e gavetas, principalmente os de parede externa. Roupas, sapatos e bolsas guardados por muito tempo mofam primeiro.
- Cantos do teto, rodapés e atrás das cortinas, junto das janelas.
- Banheiro: teto, rejunte e box.
- Desumidificador elétrico: o mais eficiente para quartos e closets. Esvazie o reservatório todos os dias.
- Potes ou sachês antimofo de cloreto de cálcio (os “tira-umidade” de supermercado): dentro de armários, gavetas e sapateiras. Troque quando encherem de água.
- Higrômetro digital: mostra a umidade de dentro de casa. Passou de 60%, é hora de ventilar ou ligar o desumidificador.
- Removedor de mofo à base de cloro ou água sanitária: para azulejo, rejunte, box e parede lavável, na diluição indicada no rótulo.
- Vinagre de álcool ou álcool 70%: para madeira, móveis e tecidos, onde o cloro mancharia.
- Tinta antimofo: na próxima pintura, principalmente em banheiro, cozinha e paredes externas.
- Pano úmido, nunca a seco. Varrer ou escovar mofo seco espalha os esporos pela casa.
- Luvas e janela aberta. E nunca misture cloro com vinagre, amoníaco ou outros produtos: a mistura solta gases tóxicos.
- Estofados e colchões: aspire, passe pano levemente úmido com vinagre ou álcool 70% (teste antes num canto escondido) e deixe secar ao sol ou com ventilador. Mofo que atravessou o tecido costuma exigir limpeza profissional.
- Roupas: lave assim que notar o cheiro e seque ao sol. Não guarde nada ainda úmido.
- Seque bem no final. Umidade que fica depois da limpeza traz o mofo de volta em poucos dias.
Se a mancha tiver cara de infiltração, vazamento ou umidade do solo, avise a imobiliária logo, com fotos e o cômodo. Quanto antes, menor o estrago. Agendamos uma vistoria, comparamos com a vistoria de entrada e, se a causa for o imóvel, o conserto é providenciado junto ao proprietário. Explicamos como funciona em Goteira, infiltração e telhado: de quem é a responsabilidade?
Se você é proprietário
O clima não é culpa de ninguém, mas o imóvel pode ajudar ou atrapalhar. Calhas e rufos limpos, telhado revisado antes da primavera, exaustor em banheiro sem janela e tinta antimofo na próxima pintura custam pouco perto de uma discussão com o inquilino ou de uma parede para refazer. Com o El Niño previsto para os próximos meses, este é um bom momento para essa revisão.
Dúvidas, fale com a gente pelo WhatsApp (51) 3177-9006 ou pelo e-mail aluguel@felippealfredo.com.
Fontes: INMET, estações automáticas Campo Bom (A884) e Porto Alegre Jardim Botânico (A801), dados horários de março de 2020 a setembro de 2026, consultados em 11/09/2026 em tempo.inmet.gov.br; boletim conjunto INMET, INPE e outros órgãos sobre o El Niño 2026 (atualizado em 01/09/2026); EPA, “A Brief Guide to Mold, Moisture and Your Home”; normais climatológicas de Porto Alegre segundo levantamento da MetSul. Lacunas: Campo Bom sem dados de umidade de maio de 2020 a junho de 2022 e de meados de junho a meados de outubro de 2025. Fotos: Unsplash.




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